quinta-feira, março 21, 2013

CALVÁRIO (20/03/2013)

                                           
As lavas corpulentas e avermelhadas, borbulham sob os meus velhos pés
Sinto ardências quase insuportáveis! Incômodos viscerais, perturbadores, inestimáveis
O sangue sai de repente. Escorre em curso natural. O vermelho nato, deu lugar a quase transparência
O líquido se dispersa pela terra inóspita, por orifícios medonhos, orificios inexploráveis.

As chamas do eterno fogo, queimam a quase tudo! Queimam a quase todos!
As cenas de pesadelo me apavoram! Os gritos das profundezas, agora jorram!
Lamentos angustiados, percorrem todo o vazio obscuro e sufocante...
Almas imersas à aflição, suplicam enlouquecidas. Sem retorno, choram.

Quanto horror em meus olhos absortos! Em tão pouco tempo de estadia!
A estrutura do tempo está congelada. O tempo está inerte à nave do nada!
Apenas me deixo levar sem qualquer reação, por ventos nunca antes sentidos...
Sinto falta do calor sincero dos familiares. Sinto falta daquela pacata, e reconfortante estrada.

Avisto um pouco abaixo dos pequenos ramos, um mar fervoroso em tom rubro
Nele, há pessoas amarguradas por excelência. Nele, há vozes conjuntas pedindo clemência.
A apreênsão se instala em meu rosto. E vou sendo levado por ventos nunca antes sentidos...
Nesse instante, os pingos desoladores de enxofre, caem sorrateiros pela mórbida dependência.

Imerso a náuseas intensas, vou sendo levado por ventos nunca antes sentidos...
Achei por toda uma vida, que o desprezo em meus domínios, exercia seus melancólicos fascínios!
Mas, nesse turbulento e miserável mundo, sou apresentado com todas as honras, às facetas desprezíveis.
Somente vivendo por aqui, é que podemos sentir com demasiada força, o real sofrimento em seus declínios.

Continuo preso a estranhas forças relevantes. Sigo escoltado por ventos nunca antes sentidos...
Deus opressor e inadmissível! Por que não implementa no inferno, sua escrita ilegível?
Nenhum acontecimento extraordinário cruzou o meu caminho. Nada bateu de frente comigo.
Fui pensante por todos os minutos. Fui até feliz. Mas, sempre por um caminho indistinguível!

O suor desce fervendo do corpo esgotado. Pressinto o fim, mas não quero admitir.
A minha matéria se foi há pouco tempo. Vive inerte em um pequeno pedaço de terra, ao relento
Mas, não dorme a eternidade sozinha. Alguns poucos vermes permanecem velando-me.
As lápides monumentais permanecem distantes. Apenas uma triste cruz testemunhou o sepultamento.

Mas, não me importo nenhum pouco. Todos conhecerão a faceta horrenda da morte!
Mesmo estando em um labirinto complexo e infinito, ela abafará o seu agonizante grito.
É o nadar em mares calmos e perfeitos o que importa. A alma necessita dessa calmaria.
Quando em vida os olhos se fecharem, terá que encontrar olhos serenos num rosto irrestrito.

A sorte não habitou os meus aposentos. Por isso, sou levado por ventos nunca antes sentidos...
Sempre tive uma dúvida mortal. Ficava imaginando se o espírito sentia dores, se chorava, coisa e tal...
Como é cruel obter essa certeza doída! Estou chorando copiosamente! Estou com medo...
Sinto dores em toda a minha enérgica estrutura. Acabo de entrar num devastador vendaval.

Avisto diversas expressões tristes e desoladas. Elas dariam dó no mais desalmado carrasco.
Vagam inquietas pelos ventos, estão desesperadas! Imploram pingos de água, as pobres infistuladas.
Estendo as minhas mãos em direção às miseráveis. É difícil tal interação. Completamente impossível.
Vou deixando as sofridas almas para trás. Vou seguindo sem destino, pelos ares das nevoeiradas.

O vendaval abrandou nesse minuto. E com tudo mais nítido, pude observar melhor aos arredores.
Quantas almas postas em fila indiana! Quantos julgos fora de questão por uma mente podre e insana!
Há realmente um enorme tribunal! Como descrito em letras pequenas nas escritas religiosas.
Sou deixado nessa arrepiante e sórdida fila. Tremo feito um filhote de gazela na imensa savana.

Vejo transtornado uma figura enorme! Com suas barbas negras, e um semblante asqueroso
Está bebendo uma taça de vinho, imerso às vaidades. Vai julgando as tristes almas, segundo às suas verdades...
Em risos histéricos, observa atento todo o aglomerado. E lançam todas para um abismo implacável!
Não vejo o paraíso como no livro retratado! Somente transtornos irreversíveis, vorazes calamidades!

Chega a minha vez no julgamento. E os olhos furiosos se lançam ao meu encontro!
Deus me dirige a palavra: - Por que a minha escrita questionastes? Por que não se humilhastes?
Nado contente num mar de pensamentos livres! É reprimível a escravidão da liberdade!
O seu castigo será o vagar pelos abismos! Não me importo! Em meu coração jamais entraras-tes!

Fui lançado sem misericórdia. Mas que ironia não? Foi por um ser intitulado misericordioso...
Há dias, estou perambulando por abismos solitários. Mas, ainda não faço parte desse sistema doutrinário!
Apenas sinto uma devastadora sede. Somente sede. A isenção da água foi o objeto retaliador.
Mas, até sorrio pelos cantos da boca. A minha mente não foi lavada! Ainda sigo forte nesse calvário.
                                                                 http://alexmenegueli.blogspot.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário