sábado, março 30, 2019

AO VENTO 22-03-2019



      Não vi os seus olhos, mas senti alegria
     Entreguei-me ao vento, tão dono de si
          Na madeira os pingos, num breve minuto
A sintonia das vozes ecoava em ti.

      Nadei sem pensar, em águas tranquilas
  Reconheci a verdade, à beira do cais
    O tempo em repouso admirava a todos
           A desordem das pedras, sentimentos reais.

     A plenitude da vida, conectada em tudo.
        A silhueta do barco, como perfeita pintura.
           A solidão inexiste, nesses traços simétricos.
    A tristeza em farrapos, em sua clausura.

  Olhar sem fronteiras, e o túnel bem claro
 Temores não há, e as emoções afloradas
A areia dispersa, e a maresia tão nítida
     Abraços sinceros, nas poeirentas estradas.


                      

VIVÊNCIAS 23-03-2019


                                               


O sino toca como há anos o ouço. Os barcos de pesca seguem tímidos
pelo mar adentro. Há carícias quase sempre nas vidraças, feitas pelo vento. E os sons fantasmagóricos permanecem vivos em minha memória. Naquele pedaço de chão, com capins por todos os lados, lindas urtigas e raízes de batata-doce se proliferam. A poucos metros, a esbelta e carismática castanheira.

Sobre o fogão vermelho, se encontra o bule que esquenta o café.
Ao ferver, produz um som memorável. Todos estão na sala, nos sofás rasgados e desconfortáveis. Na tevê, o programa da Xuxa nos presenteia com desenhos fantásticos e brincadeiras diversas. Após o almoço, Fabinho passa aqui em casa e vamos juntos à Escola. Na verdade, hoje mataremos aula perambulando por aí. Hora no fliperama, hora no bar real.

A ruazinha mórbida está como sempre. Suas pedras descascadas dão vazão a seis direções. Contígua a ela, se encontra o recanto dos que se foram. Há
flores diversas espalhadas pelo chão, e folhas secas perto dos muros. Os insetos, característicos do ambiente, percorrem afoitos pelas frestas e mergulham na terra amarelada. O aroma aqui sentido me leva a mundos extremos: o da solidão, da perspectiva, da magia, do contentamento, da jovialidade, da paixão...

Os pneus carecas de minha bicicleta passam a mil por hora e seguem imponentes pelo Caminho da Fonte. Na bagageira, um barulho irritante dos cascos de refrigerantes se chocando entre eles. Atravesso a ponte, como de costume, num piscar de olhos. Há muito fluxo de automóveis por causa da alta temporada. Isso tarda um pouco, na revendedora de bebidas do Arão, a minha chegada. Finalizo o que tinha para ser feito, e tomo o caminho de casa com muito mais cautela, pois agora estou transportando cascos de refrigerantes cheios.
         
As ferragens amarelas se tornam verdadeiros labirintos, onde nos aventuramos por cada passagem. Agora, o tempo transcorre de forma lenta e nada lá fora causa a mínima preocupação. Não existem responsabilidades. As ruas estão sempre calmas e convidativas. Nesse exato momento, estamos livres das cinzas daquelas ruínas existentes na consciência. Temos asas, e voamos a direções diversas, sempre com a vontade insaciável de alcançar o impossível.

DESPEDIDA 24-03-2019


                                                    

                
             Avistei pela última vez as ruas construídas pelas pedras cinzentas. Os edifícios e a casinha de esquina. As janelas do saudoso restaurante continuam as mesmas. Embaçadas pela neblina, que se formou há poucos minutos. Esse vento calmo me traz tantas recordações que as lágrimas não demoram a cair. Não encontro saídas, desse mundo esquecido. Não encontro entradas para os lugares contentes. O desespero pôs fim à relutância pela vida e o que faço é fugir.  Os pingos de água salgada não molham mais a madeira esverdeada daquela casa tão familiar. Naquele pedaço de chão não há mais as pequenas urtigas e nem mesmo os resquícios de um lar. Foi-se o tempo das idas matinais à procura da imagem daquele honesto político. Do contentamento à caça das embalagens de cigarro. Agora nada mais faz sentido nesse voraz mundo. E os seus dentes afiados vão dilacerando as minhas expectativas e do teu imenso ódio eu me inundo.

               Outrora, a minha maior preocupação era a areia fina nos olhos. E as pequenas ondas que se formavam tão perto da calçada, me mostravam o quanto a vida valia a pena. Aquelas estradas poeirentas, circundadas por inúmeros eucaliptos, são apenas lapsos de imagens em minha consciência. Pelo casarão de madeira me sentia confortável, largado no grande sofá. O cheiro do almoço invadia toda a sala enquanto folheava algumas revistas. Já não mais existe, a inquietação nos dias anteriores a tão aguardada saída matinal. Os olhos esperançosos na janela do quarto ou da sala. O tempo se incumbe de todos os bons e maus registros de nossas vidas.

         Observo, pela enésima e última vez, a estrutura tão frágil defronte ao descascado portão da Angélica Paixão. Na Dona Teteia, obtive tantas alegrias. Tamanha é a vontade de passar novamente por aquele pedacinho de chão, e vivenciar esse sentimento tão peculiar. A algazarra das crianças no extenso corredor se transformou em sussurros ao vento. Olha ali o campinho de terra e areia, juntamente com muitas folhas que despencam da enorme árvore. Vejo o trio se formando mais uma vez nessa pelada tão empolgante. Eleomar, Cristiano e eu, desfilamos sob um sol moderado por muitas direções. E a surrada bola de futebol agradece aos carinhos.

         Nessas águas escuras, vejo os pedalinhos sumirem atrás do manguezal e as flores coloridas enfeitarem o chão de terra batida. O vai e vem frenético das abelhas que passam velozes por cima da tapagem marrom-escura. Esse é o derradeiro passeio num barco, de médio porte, azul e branco. Feliz, mas um pouco enjoado, avanço sobre as marolas no canal principal. O odor de peixe ainda se faz presente em toda a sua estrutura. Nos cantos, muitas linhas e anzóis de diversos tamanhos. Alguns ainda permanecem com iscas ressecadas. Sinto, depois de tantos anos, a maresia impregnada nas mãos, nos cabelos, na alma...

         Os cantos dos pássaros ecoam em meus ouvidos pela última vez. Vejo as ondas de encontro às rochas nessa manhã derradeira de novembro.  De estar por aqui nos dias bons não me recordo. Fugas repentinas para esconderijos abstratos eram o que se reservavam para mim. E nem assim, os meus problemas eram solucionados. Pelas águas abaixo da antiga ponte, observo as verdades que somente eu posso detectar. À vontade, em ritmo frenético pelo ar, vejo o tempo correr com os olhos cheios de entusiasmo.  Os sonhos eram inexistentes, pois tudo era vivido em tempo real. Não havia espaço para o marasmo e lamúrias. Partirei por esses dias sem esperança de retorno. Pela estrada que seguirei não haverá acostamentos, postes de luz ou outras pessoas ao entorno. O fardo tornou-se insuportável em meus ombros. Não visualizo mais nada às claras embaixo desses escombros, e a vida não faz nenhum sentido agora.

MUNDO ESQUECIDO 04-09-2018


Há muito a se dizer nas escuridões ou claridades
Nesse mundo esquecido em meio a outros tantos
Ouço com veemência a gritaria em calmas tardes
Tímidos sorrisos emaranhados a longos prantos.


Uns rostos sucumbidos e outros bem à margem
Vejo caminhos satisfatórios nesse dia tão normal
  Pela janelinha azulada há uma estreita passagem
 Lindas pétalas cor de rosa dispersas pelo quintal.

Há voos noturnos a poucos metros dessa encosta
Atrás das belas montanhas os enigmas instigantes
 O quartinho lá nos fundos e a terrível face à mostra
 Uma convenção de devaneios e medos constantes.

Tantos subterfúgios certeiros acima dessa ribanceira
 O lamaçal em tom vermelho como um pano de fundo
A tristeza surgia às vezes, mas de forma corriqueira
A sensação de liberdade de que sempre me inundo.


Entre as plantas o tempo corre sem muito alvoroço
                                Sobre as telhas escurecidas a sincronia das aves
                                Do barquinho no horizonte o que vejo é só o esboço
                                Trilho por caminhos vastos bem longe dos entraves.


                                Os passos tão confiáveis nas ferragens amareladas
                                Em sintonia com o ambiente seus inocentes olhares
                                Os meninos inseguros vão descalços pelas estradas
                                As embalagens tão diversas em coleções peculiares.

                                Sob os galhos os metais voam ao toque dos dedos
                                Uma memorável corrida sobre a pista de areia ocorre
                                A amizade transparente aniquila quaisquer segredos
                                Sentimentos esquecidos à consciência nunca morre.

quinta-feira, março 01, 2018

TEMÍVEL ESCURIDÃO 23-02-2018



Havia somente a estrada com os postes de luz à espreita
E as noites totalmente longas com as lágrimas de desespero
A sua vida já não valia muito e a imortal Senhora se aproximava
O caminho estava traçado, mas a coragem é o que lhe faltava.

As estrelas cintilavam belas num céu limpo nesse mês tão cinza
Muitos sorrisos se ouviam na rua pacata próxima ao portão
Muitas conversas despretensiosas entre tantas pessoas à piscina
Atrás de tudo isso ele avistava com desprazer a temível escuridão.

A mente estava confusa e a ausência deles era gélida, mortal
O vazio era insuportável e pra ele tudo era desconexo, estranho
Os convites chegavam e se perdiam no desânimo tão característico
Nada fazia sentido agora e o raciocínio era algo confuso e abissal.

Onde estão os carinhos e a presença que ele não mais vê como antes?
Por que tirou o que mais o fazia sorrir nas manhãs, desprezível destino?
Ainda jovem, mas sem forças pra seguir pelo percurso, continuar
São só cinzas em suas turvas vistas defronte ao imenso e finito mar.

Ele conta os dias para tê-los novamente na antiga casa de pilares fortes
Pois a dor já não se esconde nesse ambiente melancólico e tão hostil
Ele olha pela janela à tarde e enxerga com esforço a utópica esperança
De certa forma isso abranda o seu estado crítico, doente e febril.

O abismo ainda está nele e o tempo infinito aos poucos transcorre
Há verdades que machucam muito que não consegue mais digerir
O rio calmo de antes virou um oceano de muito rancor e amargura
Não há mãos a te socorrer mesmo que tanto peça, ordene ou implore.

Aos seus olhos as imagens boas são somente vastas e esquecidas ruínas
Há tristezas espalhadas pelos cômodos humildes, frios, empoeirados
Ainda procura nas multidões alguma mísera luz que lhe traga conforto
Resquícios de interação pra não se sentir tão vazio e às vezes morto.

Soluços e gritos internos são algo absolutamente corriqueiro e normal
Quem há de suportar os conflitos que geram discórdias e depressões?
Vê abismos incontáveis e sombras grandes nas paredes amareladas
Transtornos que se sucedem em meio ao extenso e depressivo matagal.

Em seus pensamentos o fim surge de forma bem nítida e destemida
Mas a desistência ainda grita forte em sua mente indecisa e deteriorada
A arma foi escolhida e espera apenas pelos dias negros que virão
A matéria dispersa se juntará ao monstro dócil e inocivo do nada.

sábado, novembro 18, 2017

MEMÓRIAS 18/11/2017






As alvoradas daqueles inesquecíveis anos vi o sol clarear. Da janela de minha casa os transtornos se abrandarem pelo grandioso mar. As brisas suaves em minha têmpora espantarem as aflições. Pelos frágeis dedos a areia fina escorrer. A paz absoluta de manhã ao anoitecer. As pedras escorregadias abaixo dos corrimões.

Naquela movimentada tarde vi caírem as castanhas. Os barcos atravessando o canal e ao fundo as montanhas. Os peixes afoitos por entre o lodo e inúmeras frestas. Nas antenas de tevê a fileira dos lindos pardais. A tampa vermelha pelo ar a se perder nos lamaçais. O contentamento indescritível em casinhas bem modestas.

Sobre os tacos vi o banco imobiliário, o ludo e as velhas cartas. A inocência das crianças em suas fantasias fartas. O piquenique envolvente bem ao lado do Edifício. Os banhos na caixa d’água e nas paredes os respingos. Os bolos de chocolate nas tardes lindas dos domingos. O futebol no corredor e da tristeza nenhum indício.

Os desenhos vi se formarem nas areias do estacionamento. As colunas do restaurante abrandando o forte vento. Nos parapeitos das escadas as descidas corriqueiras. Às pressas Naftali com os cruzeiros em seu bolso. À frente o Monte Santo em um tremendo alvoroço. As distrações entre os galhos das velhas castanheiras.

Pelas águas barrentas vi os barquinhos de papel descendo. Sob as chuvas frias de março as crianças felizes correndo. Chamando-nos para o café a minha mãe na janela. As bananas quase podres no quartinho lá no fundo. A ribanceira que separava a realidade de um novo mundo. A luz se propagando de uma pálida e triste vela.

Atrás da carroceria vi mudas de laranja, coco e limão. Cozidos na banha de porco o delicioso arroz e feijão. Um ambiente indescritível armazenado em minha memória.  A turma na garagem imunda brincando de amarelinha. O pique-pega cansativo pela curta escadinha. Um contentamento sem limites numa época bem simplória.

Com a cesta de frutas vi entrar um senhor pelo velho portão. Escapulir por descuido alguns jambos pelo chão. As moedas dispersas em cima da geladeira Continental. Na bandeja de alumínio os sonhos de creme deliciosos. O vendedor bem-humorado com os nossos gestos ansiosos. A tarde foi se findando em uma alegria colossal.

quinta-feira, outubro 05, 2017

NEVOEIROS 05/10/2017

Pontos insignificantes em prováveis Universos
Lapsos de criatividade em negros versos
Curso por águas poluídas e duvidosas moradas
Sorrisos contestáveis que a muitos importa
Textos decorados numa biblioteca morta
Delírios nocivos pelas contestáveis estradas
Seres impensantes em avenidas bem escuras
Andarilhos sem rumo em suas eternas clausuras
Involução por todos os tristes e tediosos minutos
Olhos conformados dos inúmeros fiéis
Refúgio ilusório em templos tão cruéis
Ceifadores da razão esses líderes fajutos
Vinda aguardada do que nunca existiu
Compaixão enraizada em terreno tão hostil
Rebanhos manipuláveis desde os frios berços
Intrinsecamente se encontram os desejos impossíveis
O cego julgamento com medidas descabíveis
Pensamentos detidos em nevoeiros bem espessos.