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quinta-feira, fevereiro 21, 2013

A NOITE SEM FIM (13/02/2013)


       Os ventos rangiam as vidraças espelhadas das grandes lojas, situadas por todo o quarteirão. Cães famintos derrubavam os latões de lixo, e rosnavam feito loucos para aquelas pessoas que se arriscavam
em pôr os pés para fora de suas confortáveis casas. Eu dormia feito
uma criança em meu quarto aquecido, sob a luz de um pequeno abajur. O sono era de pedra, devido ao cansaço exarcebado que habitava o meu corpo. Mas, em poucos instantes, me encontrei assustado bem atrás da porta, em uma dúvida tremenda em abri-la ou não. Sons de copos lançados ao chão e panelas contra a parede quebrava o silêncio nesse exato momento. Minha mente pedia para que eu atravessasse a barreira que me separava das tormentas, mas o meu trêmulo corpo, implorava para que ficasse estático, e não tomasse nenhuma decisão precipitada. Por debaixo da porta, observava luzes em tons cinza escuro e alaranjadas, piscando em uma velocidade fora do comum. Na televisão em volume altíssimo, ouvia claramente crianças com suas vozes subversivas em tons diabólicos. Em círculos, eu andava desesperado preso a uma ânsia devastadora. 
    
     As duas janelas com grades grossas, impediam-me de escapar dessa repulsiva tormenta. Estava encurralado em meu próprio abrigo. Por uma das janelas entre aberta, eu via com um desespero mortal,
corvos negros como as trevas, com seus olhos amarelados. Esses
malditos pássaros, gargalhavam entre si em cima do muro de minha casa, sobre a longa calçada, e alguns enfileirados nos fios de alta tensão. Mas eles não eram os únicos lá embaixo. Diversas crianças com expressões de sofrimento, com seus enormes olhos vermelhos, sobrevoavam bem próximo às janelas, e cuspiam feito loucas em minha direção. Os cachorros já não queriam fuçar as velhas lixeiras. Estavam adentrando o meu quintal com latidos ensurdecedores, e em teus expressivos olhos, eu avistava estarrecido a implacável face da morte. 

     Fechei as janelas com os trincos, e também as cortinas. Nesse instante, ouvi as batidas violentas nos vidros. As paredes chacoalhavam, como se estivessem em meio a furiosos terremotos. Eu gritava por socorro freneticamente, ao mesmo tempo que as luzes se findaram por completo. A porta continuava no mesmo local, esperando que
alguém a abrisse. Não poderia permanecer nesse quarto, esperando algo catastrófico acontecer. Pus a mão na maçaneta, e a outra na chave. Quando comecei a girar, os sons estridentes voltaram de forma colossal, e por isso, hesitei em destranca-la mais uma vez. Dei um largo passo para trás, e corri em direção à cama. Peguei o cobertor, e me cobri dos pés à cabeça. Tremia tanto, que parecia estar em uma crise epilética. Minutos depois, todos os sons extinguiram-se, e uma paz interior tomou conta de minha carente alma. Fiquei surpreso
somente pelas luzes não terem retornado. Mas não importava, pois estava seguro aqui embaixo, e o sono já começava a dar as caras.


    Novamente feito uma criança, eu adormeci bem rápido. Acordei bem relaxado, mesmo com o alarme do despertador berrando em meus ouvidos. Com muita disposição, dei um salto da cama, e me desesperei com os ponteiros que já marcavam nove da manhã. Estava a uma hora atrasado para a entrevista de emprego. Lavei o rosto com muita pressa na pia do pequeno banheiro situado no canto do quarto. Vesti a calça de linho, pus qualquer camisa, e comecei a calçar o par de tênis. Quando estava pondo as meias, parei por um instante, e estranhei o silêncio que se fazia.  Afinal de contas, já era nove e quinze. Nesse horário, o barulho do trânsito costuma ser enlouquecedor. As buzinas não param um segundo. Por que diabos não se ouvia nada?

     Caminhei até à porta, mas a chave não queria rodar. Tentei muitas vezes, até que por fim partiu-se em duas. Pensei em gritar por alguém, para que chamassem algum chaveiro urgentemente. Fui até uma das janelas, puxei a cortina e destranquei-a. Tamanho foi o meu espanto, quando olhei para o céu escuro com suas nuvens dispersas ao redor dos imensos pinheiros. A noite amaldiçoada continuava a me perseguir.
Olhei para baixo, e vi as mesmas criaturas, imersas agora a um fraco nevoeiro. Desesperado, tentei arrombar a maldita porta, mas não era forte o suficiente para tal proeza. Depois de muitas tentativas, caí exausto ao chão gelado. Logo depois a porta milagrosamente se abriu, e eu me levantei de imediato em direção à minha única esperança. Ao passar entusiasmado por ela, percebi a ausência do assoalho, e comecei a cair em uma desoladora
escuridão. Ouvi novamente os sons diabólicos vindos de todas as partes. Gritei com todas as minhas forças. Mas a minha voz foi calada eternamente por forças desconhecidas pelo homem.

                                     http://alexmenegueli.blogspot.com.br/

sexta-feira, novembro 02, 2012

O CEMITÉRIO E A MORTE ( 02/11/2012)




                     
Acordo de repente em uma noite um pouco abafada, levanto do sofá e entro no banheiro para tomar uma revitalizante ducha. Saio e me visto com uma velha calça jeans, uma camisa meio desbotada e minhas surradas sandálias de dedo. Caminho até a varanda de casa e fico por uns instantes apreciando as cigarras cantando felizes como em um coral, os sapos que coaxam à vontade no brejo pertinho daqui. Umas duas corujas permanecem no toco da cerca com seus olhos sombrios. Vejo também lampejos de pássaros um pouco acima do telhado. Aqui consigo observar os pequenos detalhes, sentir aquela paz de espírito impossível nas grandes cidades.

Pretendo fugir um pouco das notícias catastróficas do dia a dia e dos aborrecimentos no trânsito. Antes de sair tiro o resto do almoço da geladeira e esquento-o para poder jantar mais tarde no serviço. Pego a camisa e a calça de trabalho na gaveta do armário e a minha botina, ponho em minha bolsa juntamente com a comida. Apago todas as luzes. Fecho bem a porta da sala. Vou até a garagem e pego a minha moto.

No caminho, aproveito e tomo uma cerveja para relaxar em um pequeno bar, pois hoje trabalharei de segurança em um imenso cemitério, folgando um colega. Sigo o meu rumo com muita ansiedade, pois sempre tive muito medo só de passar em frente a cemitérios, o que dizer trabalhar dentro de um. Estou muito próximo e já percebo alguns casebres no alto dos morros e nas laterais da sinuosa pista. Aproveito para me informar com exatidão a respeito do local, e um senhor de bengala e ótima feição, fala em tom firme e suave que estou a seiscentos metros do destino. Agradeço e parto satisfeito pelos poucos metros que me resta.

Magnífica e imponente essa cidade de túmulos e catacumbas! Jamais vira algo semelhante em toda a minha vida. É realmente gigantesco esse recanto dos mortos, uns dois campos de futebol de largura, com um portão de um dourado estonteante, cheio de detalhes em toda a sua extensão. Confesso que um friozinho na espinha já começa a surgir, mas como não acredito nessas idiotices de fantasmas, demônios e espíritos, consigo lidar muito bem com os meus medos antigos, e de certa forma até normais com esse cenário de espanto: Um silêncio perturbador em uma noite de lua cheia, defronte a essa fria necrópole.

Pego as chaves guardadas na parte central de minha bolsa, e apressadamente abro o portão, (Pois tenho que estar uniformizado e na ativa às dez horas, e faltam apenas quinze minutos para tal) e vou entrando com um pouco de inquietude e desassossego em meu corpo e principalmente nas pernas. Dou uma vasta olhada e posso observar a cabine onde vou passar a maior parte de meu tempo, e também um pequeno toalete e um simples quartinho anexado. Ponho a minha bolsa em cima da mesinha e vou tirando todo o meu uniforme e também a minha janta. Me visto rapidamente, calço a minha velha botina e municio a minha arma, colocando-a presa à minha perna, em uma costura feita especialmente para esse propósito. Nesse ambiente não haveria necessidade de trabalhar com ela à mostra.

Em todas as noites terei que fazer também algumas rondas por todo o território, e infelizmente terei que por duas ou três vezes me ausentar dessa cabine tão confortável. Distraio-me com um bom filme de suspense que passa na televisão. Olho em meu celular e vejo que já são uma e meia da madrugada, e decido fazer a minha primeira ronda. Saio e sigo andando um pouco tenso por entre as monumentais e assustadoras catacumbas, com dizeres grifados em pura prata e ouro, e cruzes lapidadas em puro bronze. Estou caminhando por uns dez minutos e já posso sentir o meu corpo mais relaxado e adaptado a esse lugar. O que mata é esse silêncio quase infernal que contrasta com a minha ofegante respiração.

A quase uma hora e meia de ronda sinto as minhas pernas cansadas, e por isso tomo a decisão de parar por uns minutos. Ao sentar-me por míseros segundos, ouço um estrondoso barulho que despedaça em infinitas partes o tão odiado silêncio. Mas eu juro a vocês que preferia mil vezes o mutismo! Levanto de imediato e esquecendo a canseira nas pernas, sigo meio que desorientado e transpirando medo. Já com a arma em punho, caminho acelerado em direção ao ponto onde provavelmente deu-se o barulho. Será que alguns baderneiros resolveram aprontar logo no meu primeiro dia de trabalho? Ou são ladrões oportunistas em busca dos metais preciosos de fácil acesso? Não sei responder por enquanto, para tais perguntas terei que vasculhar cada canto dessa imensidão de mortiços, e por isso apenas sigo.

O barulho não se repetiu, mas agora sinto calafrios por todo o corpo, por conta das incontáveis vozes vindas de todas as direções! Mas não consigo enxergar absolutamente ninguém, e elas continuam martelando incansáveis em minha mente. As gargalhadas agora se juntam, tornando o cenário enlouquecedor e horrendo! Sei que não estou tendo nenhum pesadelo, mais por Zeus! Vejo corujas gritando raivosas em cima dos sepulcros. Gatos negros com olhos medonhos uivando assustadoramente em minha direção. Cães monstruosos salivando sangue por todo o chão... O desespero apodera-se de minha alma perturbada, e chorando copiosamente eu corro aos trancos no meio dos túmulos...

Vultos desfigurados passeiam sobre a minha cabeça e chegam a colar em meus ouvidos, sussurrando baixinho:
-Abandone essa vida medíocre! Você não possui amigos! Não possui perspectiva! Junte-se a nós seu covarde!
-Não! Deixem-me em paz! Sumam daqui aberrações do inferno! Deixe-me em... Dezenas de mãos pútridas me agarram como se fossem grandes e fortes ventosas, e tentam me arrastar para de baixo da terra, e eu com todas as minhas forças luto ferozmente e chego a cravar as unhas em uma das mãos, mas ela se decompõe em frações de segundos e não me resta mais nada... Mas de repente, quando já havia perdido a esperança, vão se desgrudando lentamente de meu pálido corpo, e retornam ao pequeno buraco que fora feito.
Aquelas amaldiçoadas mãos fizeram um grande estrago em minhas pernas, e arrastando-me pelo chão frio ainda ouço aterradoras vozes e risadas sombrias por todos os lados. Ainda observo os gatos e corujas com os seus olhares impiedosos. Os cães transbordando ódio em suas horríveis faces, e os vultos sobre mim em sussurros infinitos.

Súbito vejo uma neblina se formando à minha frente, camuflando as aberrações e calando suas risadas, gritos e balbúrdias. Depois de uns dois minutos se desfaz e extingue todas as criaturas. Aos arrastos vou ganhando alguns metros, quando de repente os meus olhos contemplam uma linda mulher sentada à catacumba e sorrindo maravilhosamente para mim. Nessa hora, como por mágica se finda todas as minhas dores e temores, e as minhas pernas novamente fortes se levantam e seguem mais firmes e tranquilas. Seus olhos parecem hipnotizar-me e vou decidido em sua direção. Ela estende tuas delicadas e branquíssimas mãos ao meu encontro, sempre com um sorriso encantador e um olhar penetrante. Mas ao tocá-la, sinto como se a minha alma estivesse sendo tragada e arrancada do meu corpo, e o teu semblante já não é mais o mesmo. Seus olhos tornaram-se negros, seu sorriso putrificado e sua pele com uma aparência milenar!

Ainda tento desvencilhar-me dessa coisa monstruosa, mas sem êxito algum. As minhas energias estão sendo absorvidas rapidamente, e estou sendo abraçado e consumido por algo que desconheço! Estou praticamente por completo dentro dessa terrível catacumba, e com a voz fraquíssima eu faço questão de saber o seu maldito nome:
-Mas quem é você afinal?
-Sou aquele que é adorado e temido por centenas de anos em todas as religiões! O falso amor impregnado nos corações iludidos de todos os religiosos! Trevas e claridade! Amor sem medidas e ódio descomunal! Sou o mal camuflado na sagrada túnica! Sou seu Deus!
Antes de descer à escuridão, ainda consigo observar um cantinho do céu e uma fração da imensa lua cheia, espectadora exclusiva da minha partida.                           
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quinta-feira, outubro 18, 2012

HOMEM MISTERIOSO (17/10/12)

     
Da fresta de minha pequena janela marrom eu observava atentamente os movimentos sistemáticos que os moradores do edifício ao lado faziam todas as noites. Meus olhos já bastante sonolentos ficavam petrificados com a figura de um homem alto e muito robusto, vestido sempre com o mesmo sobretudo escuro, uma grande bolsa preta sob as mãos, e um enorme chapéu acinzentado que cobria praticamente toda a sua enigmática face. Esse sim era um indivíduo misterioso que me fazia perder muitas horas na fria madrugada desse inverno rigoroso. Quase sempre ele deixava seu apartamento às onze e meia pontualmente e retornava lá pelas quatro da manhã, com seus passos cadenciados e de vez em quando com um grande charuto entre os dedos.Era sexta-feira do mês de agosto, e eu acabara de fazer um pequeno lanche costumeiro deitado em minha macia cama. Às três e cinquenta e cinco da madrugada, sons estridentes de cães raivosos latindo, me fizeram levantar bruscamente do meu quente leito, e sem perca de tempo lá estava eu de novo com os olhos fixos naquele tenebroso homem.

A curiosidade e o espírito aventureiro me faziam pensar nas maiores loucuras, e foi assim que tomei a decisão de seguir aqueles passos incertos e obscuros de meu assustador vizinho.Na madrugada seguinte eu já fazia os preparativos para a minha corajosa investigação,e em minha velha mochila pus uma pequena lanterna (Para o caso de precisar usar em situações urgentes),e alguns mantimentos para a longa noite. A chuva caía fina sobre os pés de ipês que enfeitavam a avenida, e eu olhava absolutamente tenso para o antigo relógio de parede fixado em minha desarrumada sala. Estava quase na hora dele sair novamente dos seus domínios, mas os poucos minutos que faltavam pareciam longos e longos anos...

Pronto! Em uma olhada muito rápida pude observá-lo indo em direção à portaria do prédio, e com a ansiedade estampada no rosto, peguei minhas chaves em cima da mesa, abri a porta em poucos segundos e desci como uma flecha pelas escadas. Na pressa eu esquecera o guarda-chuvas pendurado na porta do quarto, mas não teria tempo de voltar para apanhá-lo, por isso segui firme pelas ruas embaixo agora de um dilúvio. Os carros passavam por mim em alta velocidade, e alguns trechos da avenida estavam completamente alagados nesse momento, mas eu prosseguia em passos largos bem atrás.

Eu estava completamente ensopado pela chuva forte e gelada, e minhas pernas tremiam tanto, que já estavam descordenando os meus pesados passos. No meu relógio de bolso (Para aguentar esse torrencial de chuva tinha que ser muito bom) estava marcando quase uma da manhã quando avistei um movimentado bar ,com pessoas muito bem vestidas, felizes e entusiasmadas com a música eletrônica que saíra de um pequeno carro de som. Ele adentrou de imediato o local e sentou-se em uma mesa no canto do estabelecimento, e por sorte minha pude acompanhar tudo por causa das laterais de vidro. Cheguei mais perto um pouquinho e: Merda! Acabara de tropeçar e mergulhar com tudo em uma grande poça de lama. Levantei, ajeitei minha roupa e procurei um lugar com tapagem (Estava transtornado com essa maldita chuva que não cessava). Reparei que ele estava demasiadamente ansioso, como se esperasse alguém, olhava freneticamente para os lados e entre uma olhada e outra tomava uns goles de uma bebida escura, e pela sua expressão bastante alcóolica.

Passáram-se quinze minutos, e eu ali sozinho, molhado e com muita fome a esperar aquele que para mim tinha algo de muito errado. Até que enfim! Chegou uma mulher oriental, aparentando no máximo trinta anos de idade, e bastante sorridente foi se apresentando para o sujeito, que com muita delicadeza foi puxando a cadeira e pedindo mais uma bebida. Parecia rolar uma boa química entre os dois (Eu já começava a pensar em ir embora, deixando de lado essa maluquice de investigação), pois os olhares se encontravam, as mãos se tocavam... Poderia estar em minha cama quentinha, tomando um bom chocolate e vendo um bom filme na televisão... Acho que estão levantando, será que vão inventar de dançar agora? Creio que não, pois ele acabou de pedir a conta!

Saíram de mãos dadas como um casal apaixonado e foram andando descontraídos pelas ruas desertas da cidadezinha, e eu acompanhava a meia distância, devorando um sanduíche que acabara de tirar da minha mochila. Eles foram cortando quarteirões aos beijos e amassos indecentes, e eu fazia força para não fechar os olhos, pois estava me segurando para não cair nos braços do grande Morfeu... Estava andando há quase uma hora praticamente, e nesse momento os dois viraram à esquerda e entraram em uma rua de chão, onde não havia resquícios de luz alguma! Tirei a minha pequena lanterna da bolsa e pude notar que ele também o fizera. Só tinha que tomar muito cuidado para não chamar a sua atenção.
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Continuei a caminhar praticamente com a lanterna apagada, e ia me guiando pela fraquíssima luz vinda da dele, com demasiado receio e cautela. Os barulhos da mata fechada rangiam os meus dentes e congelavam os meus ossos, mas nada poderia me fazer parar nesse momento. Por que será que esse cara veio trazer essa menina nesse fim de mundo? Alguma coisa estava por vir. Ouvi o barulho de porteira rangendo timidamente, e pude enxergar bem longe a claridade de uma casinha talvez. Estava a metros da porteira nesse momento, e fui adentrando com o coração acelerado pela propriedade cheia de árvores, plantações, alguns gados ... Cheguei o mais perto que pude e fiquei atrás de uma grande figueira. Ele foi logo abrindo a porta, e ela continuava muito sorridente, cantarolando alguma música que não conhecia... Pronto! Os dois entraram.

Engraçado; não conseguia observar nenhuma janela, dei uma volta rápida pela casa e também não vi mais nenhuma porta. Esperei sentado por no máximo trinta minutos, e nesse tempo não ouvi mais nenhum ruído, risadas, gemidos ou gritos dentro da casa. Estava perplexo e inseguro nesse instante, esse clima misterioso e sombrio estava me deixando com os nervos à flor da pele! A porta se abriu bem lentamente, e ele com aquele semblante frio e habitual, olhou para o breu noturno e a encostou. Mas em suas mãos não estava mais a grande bolsa preta de costume, e sim uma enorme sacola cinza que ele levava com um pouco de dificuldade. Minha nossa! Não pode ser o corpo daquela  garota! Minhas mãos estavam suadas e gélidas, minhas pernas tremiam assustadoramente, e eu imóvel, o vi sumindo por entre as obscuras árvores... Fiquei estático apenas por alguns segundos (Como um frágil camundongo defronte a uma voraz víbora) e com o olhar perdido, mas logo voltei ao meu estado normal, e com ímpeto e muita coragem prossegui com firmeza. Será que terei tempo de entrar nesse casebre e acabar de uma vez por todas com essa incógnita pertinente que assola e consome todos os meus pensamentos?

Respiro fundo e subo correndo pelos poucos degraus que dão acesso à varandinha. Ponho a mão na porta e vou abrindo com bastante cuidado. Ela range um pouquinho e ao entrar me deparo com um pequeno sofá no centro, uma velha vitrola ao canto, e um quadro assimétrico na parede descascada e repleta de traças. Vou adentrando com cautela e chegando à pequenina e suja cozinha. Vejo algumas ferramentas dispersas em uma compacta mesa, com algumas manchas de sangue (O medo vai entrando pelos meus poros e tentando paralizar-me por completo), e mais ao lado observo uma caixa térmica não muito grande e vermelha... Afoito eu a abro, e quase caio para trás com o que acabara de ver: Um coração bastante rubro (que parece agonizar perdido entre as pedras de gelo), os rins e córneas abraçados a espera de um incerto destino). Quantas vítimas esse monstro já não fizera? Eu estava certo quanto a esse crápula, e sabia que algo não estava cheirando bem!

Ouço novamente o ranger da porta, e em pânico saio em disparada da cozinha e esbarro no sofá da sala caindo pelo chão gelado. Ainda caído, vêjo-o entrar lentamente. Me encara com um sorriso cínico nos lábios, pôe a mão no bolso do sobretudo e pega o molho de chaves. Tranca a porta e diz asperamente:
-Vejo que hoje é o meu dia de sorte, uma caça fresquinha bem aqui na minha frente! Levanto e tento escapar, mas por onde? Há somente uma saída, e ele acabara de trancar...
-Por favor senhor, eu não vi nada, não sei de nada! Aos prantos e soluços eu peço que me deixe ir embora. Mas sem pronunciar sequer mais alguma palavra, ele se aproxima vagarozamente (Com seus quase dois metros de altura), me pega pelo pescoço com suas mãos pesadas e cheia de calos, me leva para a cozinha em meio a socos e diversos tapas na face. Amarra com firmeza as minhas trêmulas mãos, me amordaça com uma toalha surrada e imunda, e tira da cintura uma enorme e prateada navalha... Ele vai passando bem devagar em meu pescoço, quando por frações de segundos, ainda consigo observar os respingos de sangue em tua horrenda face, e os olhos flamejantes e frios do meu misterioso assassino.                                               http://alexmenegueli.blogspot.com.br/
                                                                17/10/2012