quinta-feira, outubro 18, 2012

HOMEM MISTERIOSO (17/10/12)

     
Da fresta de minha pequena janela marrom eu observava atentamente os movimentos sistemáticos que os moradores do edifício ao lado faziam todas as noites. Meus olhos já bastante sonolentos ficavam petrificados com a figura de um homem alto e muito robusto, vestido sempre com o mesmo sobretudo escuro, uma grande bolsa preta sob as mãos, e um enorme chapéu acinzentado que cobria praticamente toda a sua enigmática face. Esse sim era um indivíduo misterioso que me fazia perder muitas horas na fria madrugada desse inverno rigoroso. Quase sempre ele deixava seu apartamento às onze e meia pontualmente e retornava lá pelas quatro da manhã, com seus passos cadenciados e de vez em quando com um grande charuto entre os dedos.Era sexta-feira do mês de agosto, e eu acabara de fazer um pequeno lanche costumeiro deitado em minha macia cama. Às três e cinquenta e cinco da madrugada, sons estridentes de cães raivosos latindo, me fizeram levantar bruscamente do meu quente leito, e sem perca de tempo lá estava eu de novo com os olhos fixos naquele tenebroso homem.

A curiosidade e o espírito aventureiro me faziam pensar nas maiores loucuras, e foi assim que tomei a decisão de seguir aqueles passos incertos e obscuros de meu assustador vizinho.Na madrugada seguinte eu já fazia os preparativos para a minha corajosa investigação,e em minha velha mochila pus uma pequena lanterna (Para o caso de precisar usar em situações urgentes),e alguns mantimentos para a longa noite. A chuva caía fina sobre os pés de ipês que enfeitavam a avenida, e eu olhava absolutamente tenso para o antigo relógio de parede fixado em minha desarrumada sala. Estava quase na hora dele sair novamente dos seus domínios, mas os poucos minutos que faltavam pareciam longos e longos anos...

Pronto! Em uma olhada muito rápida pude observá-lo indo em direção à portaria do prédio, e com a ansiedade estampada no rosto, peguei minhas chaves em cima da mesa, abri a porta em poucos segundos e desci como uma flecha pelas escadas. Na pressa eu esquecera o guarda-chuvas pendurado na porta do quarto, mas não teria tempo de voltar para apanhá-lo, por isso segui firme pelas ruas embaixo agora de um dilúvio. Os carros passavam por mim em alta velocidade, e alguns trechos da avenida estavam completamente alagados nesse momento, mas eu prosseguia em passos largos bem atrás.

Eu estava completamente ensopado pela chuva forte e gelada, e minhas pernas tremiam tanto, que já estavam descordenando os meus pesados passos. No meu relógio de bolso (Para aguentar esse torrencial de chuva tinha que ser muito bom) estava marcando quase uma da manhã quando avistei um movimentado bar ,com pessoas muito bem vestidas, felizes e entusiasmadas com a música eletrônica que saíra de um pequeno carro de som. Ele adentrou de imediato o local e sentou-se em uma mesa no canto do estabelecimento, e por sorte minha pude acompanhar tudo por causa das laterais de vidro. Cheguei mais perto um pouquinho e: Merda! Acabara de tropeçar e mergulhar com tudo em uma grande poça de lama. Levantei, ajeitei minha roupa e procurei um lugar com tapagem (Estava transtornado com essa maldita chuva que não cessava). Reparei que ele estava demasiadamente ansioso, como se esperasse alguém, olhava freneticamente para os lados e entre uma olhada e outra tomava uns goles de uma bebida escura, e pela sua expressão bastante alcóolica.

Passáram-se quinze minutos, e eu ali sozinho, molhado e com muita fome a esperar aquele que para mim tinha algo de muito errado. Até que enfim! Chegou uma mulher oriental, aparentando no máximo trinta anos de idade, e bastante sorridente foi se apresentando para o sujeito, que com muita delicadeza foi puxando a cadeira e pedindo mais uma bebida. Parecia rolar uma boa química entre os dois (Eu já começava a pensar em ir embora, deixando de lado essa maluquice de investigação), pois os olhares se encontravam, as mãos se tocavam... Poderia estar em minha cama quentinha, tomando um bom chocolate e vendo um bom filme na televisão... Acho que estão levantando, será que vão inventar de dançar agora? Creio que não, pois ele acabou de pedir a conta!

Saíram de mãos dadas como um casal apaixonado e foram andando descontraídos pelas ruas desertas da cidadezinha, e eu acompanhava a meia distância, devorando um sanduíche que acabara de tirar da minha mochila. Eles foram cortando quarteirões aos beijos e amassos indecentes, e eu fazia força para não fechar os olhos, pois estava me segurando para não cair nos braços do grande Morfeu... Estava andando há quase uma hora praticamente, e nesse momento os dois viraram à esquerda e entraram em uma rua de chão, onde não havia resquícios de luz alguma! Tirei a minha pequena lanterna da bolsa e pude notar que ele também o fizera. Só tinha que tomar muito cuidado para não chamar a sua atenção.
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Continuei a caminhar praticamente com a lanterna apagada, e ia me guiando pela fraquíssima luz vinda da dele, com demasiado receio e cautela. Os barulhos da mata fechada rangiam os meus dentes e congelavam os meus ossos, mas nada poderia me fazer parar nesse momento. Por que será que esse cara veio trazer essa menina nesse fim de mundo? Alguma coisa estava por vir. Ouvi o barulho de porteira rangendo timidamente, e pude enxergar bem longe a claridade de uma casinha talvez. Estava a metros da porteira nesse momento, e fui adentrando com o coração acelerado pela propriedade cheia de árvores, plantações, alguns gados ... Cheguei o mais perto que pude e fiquei atrás de uma grande figueira. Ele foi logo abrindo a porta, e ela continuava muito sorridente, cantarolando alguma música que não conhecia... Pronto! Os dois entraram.

Engraçado; não conseguia observar nenhuma janela, dei uma volta rápida pela casa e também não vi mais nenhuma porta. Esperei sentado por no máximo trinta minutos, e nesse tempo não ouvi mais nenhum ruído, risadas, gemidos ou gritos dentro da casa. Estava perplexo e inseguro nesse instante, esse clima misterioso e sombrio estava me deixando com os nervos à flor da pele! A porta se abriu bem lentamente, e ele com aquele semblante frio e habitual, olhou para o breu noturno e a encostou. Mas em suas mãos não estava mais a grande bolsa preta de costume, e sim uma enorme sacola cinza que ele levava com um pouco de dificuldade. Minha nossa! Não pode ser o corpo daquela  garota! Minhas mãos estavam suadas e gélidas, minhas pernas tremiam assustadoramente, e eu imóvel, o vi sumindo por entre as obscuras árvores... Fiquei estático apenas por alguns segundos (Como um frágil camundongo defronte a uma voraz víbora) e com o olhar perdido, mas logo voltei ao meu estado normal, e com ímpeto e muita coragem prossegui com firmeza. Será que terei tempo de entrar nesse casebre e acabar de uma vez por todas com essa incógnita pertinente que assola e consome todos os meus pensamentos?

Respiro fundo e subo correndo pelos poucos degraus que dão acesso à varandinha. Ponho a mão na porta e vou abrindo com bastante cuidado. Ela range um pouquinho e ao entrar me deparo com um pequeno sofá no centro, uma velha vitrola ao canto, e um quadro assimétrico na parede descascada e repleta de traças. Vou adentrando com cautela e chegando à pequenina e suja cozinha. Vejo algumas ferramentas dispersas em uma compacta mesa, com algumas manchas de sangue (O medo vai entrando pelos meus poros e tentando paralizar-me por completo), e mais ao lado observo uma caixa térmica não muito grande e vermelha... Afoito eu a abro, e quase caio para trás com o que acabara de ver: Um coração bastante rubro (que parece agonizar perdido entre as pedras de gelo), os rins e córneas abraçados a espera de um incerto destino). Quantas vítimas esse monstro já não fizera? Eu estava certo quanto a esse crápula, e sabia que algo não estava cheirando bem!

Ouço novamente o ranger da porta, e em pânico saio em disparada da cozinha e esbarro no sofá da sala caindo pelo chão gelado. Ainda caído, vêjo-o entrar lentamente. Me encara com um sorriso cínico nos lábios, pôe a mão no bolso do sobretudo e pega o molho de chaves. Tranca a porta e diz asperamente:
-Vejo que hoje é o meu dia de sorte, uma caça fresquinha bem aqui na minha frente! Levanto e tento escapar, mas por onde? Há somente uma saída, e ele acabara de trancar...
-Por favor senhor, eu não vi nada, não sei de nada! Aos prantos e soluços eu peço que me deixe ir embora. Mas sem pronunciar sequer mais alguma palavra, ele se aproxima vagarozamente (Com seus quase dois metros de altura), me pega pelo pescoço com suas mãos pesadas e cheia de calos, me leva para a cozinha em meio a socos e diversos tapas na face. Amarra com firmeza as minhas trêmulas mãos, me amordaça com uma toalha surrada e imunda, e tira da cintura uma enorme e prateada navalha... Ele vai passando bem devagar em meu pescoço, quando por frações de segundos, ainda consigo observar os respingos de sangue em tua horrenda face, e os olhos flamejantes e frios do meu misterioso assassino.                                               http://alexmenegueli.blogspot.com.br/
                                                                17/10/2012

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