sexta-feira, outubro 26, 2012

REGRESSÃO (26/10/2012)





Ao passar por essas antigas esquinas e turbulentas ruas, sinto que as minhas vértebras e toda a minha consciência vão sendo tragadas, usurpadas e consumidas por uma enorme e turbulenta máquina do tempo, e assim vou sendo lançado em um túnel de incertezas coerentes e retrocedendo há quase vinte anos atrás. As castanheiras permanecem estagnadas em seu mesmo recanto, esverdeantes e amparadas pelas serenas brisas de janeiro, lindos ninhos de pardais e raios solares que revigoram as folhas e galhos... Nesse momento revivo todos os meus passos perfeitos e exatos, isentos de culpa, responsabilidades, amarguras, decepções...

Os bons ventos acariciam com serenidade os meus negros e lisos cabelos, arremessando-me a lugares desprovidos de cenas tristes, onde se predomina os milhares de sorrisos transparentes e fáceis, misturados aos contentamentos que brotam em série, em cada centímetro cúbico dessa pracinha. O cemitério continua no mesmo local, entre as duas ruas curtas e pouco movimentadas. E certamente não posso esquecer o quão feliz eu fui nesse pedacinho de chão...

Esse verão de mil novecentos e noventa e quatro está realmente esplendoroso, com poucas nuvens em um céu azul claro, e o Sol imponente a despejar seus abraços quentes por toda a Orla. Reparo que o relógio está marcando três e meia da tarde. É a hora de pegar minha velha bicicleta e descer o íngreme morro a mil por hora, e encarar mais esse dia de trabalho. Eu nem posso dizer encarar, pois me dá tanto prazer em estar ao lado de um grande e inesquecível amigo, e juntos servimos aos mais variados turistas com entusiasmo e bastante alegria. Jamais pensei que pudesse reviver esses acontecimentos singulares mais uma vez!

O imenso e ouvinte banco continua próximo à antiquíssima árvore, e ao sentar depois de quase uma geração, revivo as histórias hilárias do cotidiano, as piadas sensacionais, e também algumas desavenças altamente corriqueiras e sem nenhuma importância. Está começando, posso ouvir perfeitamente as vozes femininas afinadíssimas, os rappers em tempos precisos e intensos, e as batidas envolventes que ditam o rítimo por todo um ano primoroso e mágico.

Minha visão começou a ficar muito embaçada, já não distingo as cores muito bem, os objetos ficaram indefinidos... É; tenho pouquíssimos minutos agora, mas ainda é suficiente para contemplar por mais uma vez o maravilhoso vai e vem das pessoas comprando mercadorias, lembrancinhas... Dos comerciantes indo à luta bravamente... Da algazarra sem igual por toda a feirinha hippy. Uma densa e negra neblina já deu as caras, e derrepente tudo e todos vão sendo reduzidos a quase nada, e a nitidez que vislumbrava vai se diluindo rapidamente e sumindo sem deixar rastros nos incontáveis bueiros de minha vasta memória...

Nesse preciso momento vou entrando em minha máquina do tempo, e em uma velocidade absurda vou retornando à minha conturbada Era. Olho para o meu relógio e constato que essa viagem fantástica durou apenas um minuto. Um ano repleto e intenso, perfeito e intocável, resumido em tão pouco tempo, e guardado com muito zelo nas profundidades do meu inconsciente.

Com a cabeça baixa, caminho nessas terras tediosas do presente, passo em frente à importante Biblioteca, atravesso a rua e com os olhos marejados e fundos, observo quase o mesmo cenário: As belas e carismáticas castanheiras, as barraquinhas juntas como uma grande e unida família, o inesquecível banco e a sua fiel companheira árvore... Mas procuro incansável e desesperado os grandes amigos, e não consigo vê-los sentados e felizes como antes os via. O som tão revolucionário e extremamente marcante foi levado por ventos fortíssimos, e os sorrisos que eram o pano de fundo desse ambiente, mudaram-se contra a vontade para aquele histórico cemitério, e foram enterrados vivos nas cavidades mais profundas.                              http://alexmenegueli.blogspot.com.br/

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